O bem como o sentimento de prazer no
eu
A ética
funda-se nos sentimentos de prazer e desprazer no eu, porque o bem e o mal não
são mais do que os mesmos. Antes de o prazer ocorrer, não se pode dizer que
haja bem, mas apenas males necessários para que esse bem ocorra. Embora sejam
necessários para o bem, não deixam de ser males, como quando alguém precisa de
ser operado para sobreviver. O eu não quer ser operado, ninguém quer que lhe
abram o corpo, e no entanto sabe que só sobrevive se for operado. Sabe que é um
mal pelo qual tem de passar, para alcançar um bem. Mas o bem só ocorre quando
ocorre o sentimento de prazer no eu, “sobrevivi”.
Uma vontade de sofrimento
Até esse
momento, o eu está numa situação que vai contra o que ele quer, e em
sofrimento. Não está em sofrimento por ver a sua vontade contrariada, mas
porque sente um desprazer anterior ao que se associa à vontade contrariada. A
vontade contrariada é apenas uma implicação do sentimento de desprazer que sofre:
não quero. Imediatamente, ao não querer associa-se o não dever. O eu acha que
não devia ser assim, que não devia sofrer. Embora por vezes existam eus que
acham que devem sofrer, como quando têm um sentimento de culpa enorme por
alguma situação e acham que devem ser castigados. Por isso, há por vezes eus que
acham que deviam sofrer. Nesses casos, a sua vontade é uma vontade de
sofrimento.
Uma vontade de sofrimento é uma
vontade de prazer
Mas mesmo
essa vontade de sofrimento é uma vontade de prazer, porque é uma vontade de aniquilação
da culpa, que é o que está a causar sofrimento. Nesses casos, o eu julga que
obtém uma recompensa ao ser punido, nomeadamente a aniquilação psicológica do
sentimento de culpa. Acha que merece ser punido e que, ao sê-lo, a justiça será
feita e tudo voltará ao seu equilíbrio, o bem e o mal estarão de novo
equilibrados, na estaca zero: o eu não se vê mais como mau, e julga que pode a
partir desse momento praticar o bem. O eu gosta de se ver como bom, como agente
do bem.
Nem sempre somos bons, mas devíamos
Mas nem
sempre somos bons. Nem sempre somos corajosos ou caridosos, por exemplo.
Causamos, em nós e nos outros, não raras vezes, sentimento de desprazer, através
de palavras, actos e omissões. Por vezes, somos maus para nós ou para os
outros. É necessário, para o bem, que sejamos menos vezes maus do que bons, que
sejamos agentes do bem num mundo com tanto sofrimento. Não para que tenhamos um
boa imagem de nós e sintamos prazer com isso, mas para que causemos prazer, e
portanto bem e felicidade, no eu e no outro. Uma ética que não inclua o outro como
figura fundante da mesma, não é uma boa ética.
Cuidar do outro
O outro
existe e sofre como nós. Devemos cuidar dele, ajudá-lo a não sofrer. Porque
sofrer é mau, e o eu tem o dever de ajudar a aniquilar uma parte do sofrimento
que existe neste mundo. É um dever, não uma obrigação. Ninguém deveria obrigar
alguém a ajudá-lo, porque isso seria coagi-lo (e a coacção é má), mas a vontade
de ajudar o outro devia brotar naturalmente do eu. Isso ocorre, nos eus, em
maior ou menor quantidade, dependendo de quão desenvolvida está a sua vontade
de bem. Quanto mais desenvolvida estiver, mais o eu se preocupará com o outro,
com o seu bem-estar.
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