Num mundo
eticamente perfeito não existiria sofrimento. Nesse mundo, os eus existiriam
num estado eterno de beatitude. Num estado eterno de amor. Para isso, o eu
precisa do outro. É ao outro que o eu dá amor e é o outro que dá amor ao eu. Um
estado eterno de amor é esse trocar eternamente. Isso é o mundo eticamente
perfeito. É o mundo em que todos os eus deveriam existir. A troca do amor é a
coisa mais boa e bela que existe, é a melhor. É a perfeita, aquilo melhor do que
o qual não pode ser sentido nem pensado. Um mundo eticamente perfeito é um
mundo pleno em amor, é um mundo que é amor.
O nosso
mundo tem amor, mas não é amor. Tem também muito ódio e sofrimento. Talvez a
história da humanidade seja o caminhar para um mundo eticamente mais perfeito,
talvez seja o contrário. Talvez não seja nenhuma de ambas e não exista
teleologia alguma. Mas existe a ideia e a esperança de que o mundo possa ser
melhor do que é, de que se torne eticamente mais perfeito, com menos mal.
Existem as ideias de que poderia e deveria ser de outro modo. Há muitas coisas
que deveriam ser de outro modo: os homicídios e os suicídios não deveriam ocorrer,
as violações também não, os esfaqueamentos, as pancadarias, os atropelamentos,
as quedas de aviões, as catástrofes naturais, os incêndios, os acidentes… Há
uma miríade de coisas que deveriam ser de outro modo. Que revelam não o amor,
mas o desespero, o ódio, a ganância, o medo… Tudo isso existe nos eus. Outras, não
podem ser de outro modo, como a morte. Morrer é inevitável.
A melhor
morte é uma morte numa velhice saudável, após uma vida boa. É a morte ideal.
Eticamente perfeito é ter-se uma vida boa e uma morte indolor. É, também,
possuir certas qualidades, como ser bom ou justo. Tudo isso vai-se no morrer, e
do estar morto não podemos falar, porque desconhecemos. O que acontece ao eu
após a morte é uma total escuridão para o eu. Existe, nas várias religiões, a
ideia de permanência do eu e de justiça aplicada ao eu, que ora vai para o
inferno, ora desce ou sobe para estados inferiores ou superiores de existência…
Ao contrário, Epicuro afirmou que a morte nada (nos) é, e que portanto não
devemos temê-la. Na verdade, o que é a morte e o que acontece após a morte é
uma total escuridão para o eu.
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