O eu é o único objecto de cuidado deste mundo. O único que sente prazer e dor, o único que sofre ou sente felicidade. O único que se magoa, que verdadeiramente se parte e quebra. O único que chora e ri. O único que sente medo ou ansiedade e os seus contrários. O único que sente atracção ou repulsa. O único que ama ou odeia. O único objecto em que o bem e o mal verdadeiramente existem. Aquele que sofre o bem ou o mal, aquele que tem consciência disso. O que vive e o que morre, mas acima de tudo o que sente (e sentir é ter consciência que se sente). Não deveremos cuidar de algo assim e descuidar-nos de tudo o mais?
Devemos cuidar do outro – que é um eu - para que se não sinta triste. Para que se não sinta mal. Devemos preocupar-nos com o seu bem-estar. Para que não sofra as internas feridas da mente, e para que permaneça sempre saudável. Devemos fazê-lo através de actos provindos de uma volição natural da vontade. Esta volição natural da vontade é a mudança de um não querer para o (começar a) querer bem ao outro; ter, em relação ao outro, uma vontade de bem, de que acontecimentos bons ocorram na sua vida, que esta seja lhe boa, alegre, feliz, que não sofra ou que sofra menos, que consiga evitar ao máximo o sofrimento e abraçar ao máximo a felicidade. Que se sinta bem nos seus sentires e sentimentos. Que nada o atemorize, que arruíne os medos-muros que o reprimem, que o afastam de si e do outro, ou que o levam violentamente de encontro ao muro de entendimentos errados da realidade. Devemos ajudar o outro, de todas as formas que nos forem possíveis, e em todos os aspectos do outro em que este precise de ajuda, inclusivamente a livrar-se das visões falsas. Devia ser uma obrigação do eu para com o outro, mas não é de facto uma obrigação: o que é uma obrigação?
A única coisa a que estamos obrigados, a partir do momento em que nascemos, é a viver e a morrer, com tudo o que isso pode implicar de bom e de mau. De resto, podemos escolher, de forma condicionada pelas circunstâncias, o modo como vivemos e por vezes como morremos. Não existem direitos nem deveres necessários, mas apenas aqueles que são implementados pela comunidade de humanos, que apontam direcções, rumos melhores e rumos piores, caminhos do bem e caminhos do mal, o que é e as suas recompensas ou condenações… Mas que apenas indicam, não obrigando metafisicamente. A obrigatoriedade do cuidado do eu para com o outro e para com ele mesmo não é uma necessidade metafísica. Daí tanto existirem eus que cuidam de si e dos outros, como eus que não cuidam de si nem dos outros.
Mas o eu devia ter sempre presente a ideia de cuidar de si e do outro. Cuidar dos eus, ter cuidado com os eus. Cuidado para, nas suas fragilidades, não se quebrarem. Saber o outro como um eu, e saber que coisas são eus. Saber o que tem senciência. Conhecer o que sabe que sente, o que sente que sente, o que tem certeza que sente. E respeitar esses seres ao máximo. Respeitar todos os outros apenas por respeito para com esses. Saber que importa o que importa a alguém – e todos os eus são alguém -, e nada mais. Que, a partir do momento em que a mais pequena coisa é importante para alguém, essa tão pequena coisa é importante. Para todos. Devíamos desenvolver uma ética da ternura e do cuidado para com o eu e o outro, e aplicá-la. Uma ética do sentir e dos sentimentos, fundada no respeito máximo para com os eus, precisamente porque sentem e têm sentimentos. Porque a vida lhes dói ou não. Uma ética que é estética, porque fundada no sentir e nos sentimentos de prazer e de desprazer que a realidade provoca no eu, no juízo de gosto. Mas um juízo que provém, no seu modo embrionário, do instinto e não da razão; que é imediato, não ponderado, fundado na certeza, na evidência do sentir.
Sentir é saber que se sente. Todos os seres sencientes sabem que sentem. Todos os seres sencientes têm esse conhecimento. E sentir implica conhecer o bem e o mal, que são algo que ocorre apenas nos eus, nos seres que sentem e que têm sentimentos. O bem e o mal só ocorrem quando se actualizam num eu. E potencialmente existem apenas nos potenciais sentires e sentimentos do eu, no futuro. O bem e o mal são essencial e metafisicamente os sentimentos de prazer e de desprazer dos eus. São isso e não podem ser outra coisa. O bem e o mal não existem desencarnados dos eus. Bom é algum eu sentir-se bem, e mau é algum eu sentir-se mal. O bem perfeito seria todos os eus sentirem-se bem e o mal perfeito seria todos os eus sentirem-se mal. Não existem bem nem mal para além do bem e do mal que ocorrem nos eus. Tudo o mais que possa ser considerado bom ou mau, é-o apenas por ser bom ou mau para os eus.
Se não existissem bem nem mal, nada seria importante. Se não existissem eus não existiriam bem nem mal. Portanto, se não existissem eus, nada seria importante. Se o bem e o mal não existissem, não existiriam os sentimentos de prazer e de desprazer do eu e, portanto, não existiriam o sofrimento e a felicidade. Não existindo estes, a vida não teria qualquer importância. Do sentir para os sentimentos, são estes que tornam a vida importante e, por isso, são estes que dão sentido à vida. Uma vida de pura felicidade não existe, e uma vida de puro sofrimento é absurda. O sentido da vida encontra-se no meio, algures entre a felicidade e o sofrimento. Um eu para o qual a felicidade é importante, é um eu que sabe o que é o sofrimento. E que, ao saber o que é o sofrimento, sabe que o sofrimento é importante. Não por ser importante sofrer, mas por o sofrimento ser solene e a evitar. Por isso, quem sabe que a felicidade é importante, sabe que o sofrimento é importante.
Todo o sofrimento é psicológico, embora algum tenha causa física e outro psicológica. Todo o sofrimento é psicológico, porque sentir é saber que se sente, e é neste saber propriamente, neste momento do processo de sentir, que ocorre o sofrimento. Sofre-se só quando se sabe que se sofre. Por isso, todo o sofrimento é psicológico, embora as causas do sofrimento difiram. Podemos sofrer por estarmos a ser torturados física ou psicologicamente. Em casos de normal consideração nestes assuntos, como o caso da tortura, a causa física é habitualmente mais provocadora de sofrimento do que a causa psicológica. É habitualmente pior estar a ser torturado física do que psicologicamente. A dor que provém do corpo é muito mais extrema do que a dor que provém da mente. Por isso, tememos mais uma causa do que a outra. Tememos mais sofrer dores com causas físicas do que dores com causas psicológicas. São sofrimentos diferentes e a dor com causas físicas é nos casos mais extremos a dor mais extrema que existe. Mas mesmo essa dor só é dor a partir do momento em que o eu sabe que sente a dor. E dor é sofrimento. Por isso, todo o sofrimento é psicológico. Do mesmo modo, toda a felicidade é psicológica, porque a felicidade só existe a partir do momento em que um eu sabe que sente felicidade. E é neste saber, neste conhecimento, que propriamente reside a felicidade, é quando se dá esse conhecimento que ela ocorre. Por isso, o sofrimento e a felicidade são ocorrências psicológicas de prazer e de desprazer no eu.
Como aumentar a felicidade e diminuir o sofrimento no eu? Aumentando a sensação e o sentimento de prazer, e diminuindo a sensação e o sentimento de desprazer no eu. O eu busca isso, a sensação e o sentimento de prazer. É uma busca que começa por ser hedonista, na medida em que procura o prazer e evita o desprazer. Mas é algo mais do que hedonista, deve tornar-se altruísta. O altruísmo é outro modo de como gostaríamos que os eus fossem. Gostaríamos que os eus se preocupassem com os outros, independentemente das suas razões, mas idealmente com uma preocupação genuína. E isso ultrapassa em muito o hedonismo, que é a busca de prazer para o próprio, porque o inclui, mas estende-se à busca de prazer para o outro. Então, embora a ética se funde no hedonismo, desenvolve-se no altruísmo, como que passando do mundo físico onde começa o sentir, para um mundo psicológico onde este culmina e ocorrem as sensações e os sentimentos, para um mundo imaginado que é como o mundo actual deveria ser.
Os moralistas dizem então: todos deveríamos ser altruístas. Eu nem acho isso. Acho que talvez não fosse possível sermos todos altruístas. Mas alguns de nós certamente são. Embora neste mundo tudo esteja misturado e não seja possível alguém sem ocorrências de egoísmo na sua vida, alguns podem ter mais ocorrências de altruísmo do que egoísmo nas suas vidas e serem então chamados de altruístas. Mas isto é apenas uma questão de quantidade porque, eventualmente, todos os eus têm ambas as qualidades. Os moralistas podem também dizer: todos deveríamos ser egoístas. Se isso significa apegados ao eu e não ao outro, eu acho que não devia ser assim. Mas, mais uma vez, é apenas uma questão de achar. Não existem factos morais, mas apenas opiniões morais, vários achares de como o mundo deveria ser.
Do mesmo modo que existem apenas vários achares de como o mundo deveria ser, existem também vários quereres, como querer ser feliz e não querer sofrer. Isso leva os eus a abraçarem a felicidade e a evitarem o sofrimento. Querem uma coisa e não querem a outra. Então, movimentam-se na direcção de uma e fogem da direcção da outra. Essa volição inicial da vontade, após a primeira aprendizagem do que são a felicidade e o sofrimento, transforma-se com o tempo numa volição psico-física, do eu que se movimenta, no espaço e no tempo, em direcção à felicidade. Um eu que escolhe a felicidade. Mas será a felicidade uma questão de escolha? Em certos casos sim, em certos casos não. Certas pessoas podem escolher, outras não. Há pessoas que estão determinadas pelas circunstâncias, pelo menos a partir de certo momento, a sofrer até morrer, e outras que estão, pelos mesmos motivos, determinadas a ser felizes até morrer. Por isso, as circunstâncias determinam se podemos ou não escolher. Ninguém escolhe ter cancro e um bêbedo não escolhe ganhar a lotaria. E isto são circunstâncias que provocam a ocorrência de sofrimento e prazer no eu. Não foram escolhas, e apesar disso existem os sentimentos de prazer e de desprazer no eu. Existem o quero mais e o não quero mais. Existem o isto deveria ser assim e o isto não deveria ser assim. Existe ética, e apesar disso não existiu liberdade de escolha. A ética existe até na sorte e no azar, portanto.
Sempre que algo é considerado bom e gera desejo, e sempre que algo é considerado mau e gera aversão, existe ética. A partir desse momento existem as ideias de que algo deve ser e de que algo não deve ser. Que deve ser o que é considerado bom e que não deve ser o que é considerado mau. Onde há eu, há ética, porque onde há eu, há felicidade e sofrimento, e onde estes existem, existe ética. O mundo do eu, desde o momento em que sente, é um mundo permanentemente ético, não porque estejamos permanentemente a escolher, mas porque estamos permanentemente a sofrer ou a ser felizes. Embora oscilemos entre ambos os estados, é sempre o caso que está a ocorrer um ou outro dos estados. E isto ocorre desde o momento em que começamos a sentir até ao momento em que deixamos de sentir, o que faz da vida uma experiência permanentemente ética e estética.
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