quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

A situação ética do eu

O bem e o mal apareceram, pela primeira vez, no momento em que um primeiro eu sentiu os sentimentos de prazer e desprazer no eu. Nesse momento, surgiram as ideias de bem e de mal, e as de dever e de não dever ser assim. Surgiram, também, o querer que assim seja e o não querer que assim seja. A partir do momento em que o bem e o mal surgiram, deu-se nesse eu uma volição na vontade, que passou a ser vontade de bem e desvontade de mal, portanto, vontade de prazer e desvontade de sofrimento, e também uma volição na imaginação, que passou a ser imaginação do dever e do não dever ser de tal ou tal modo. Surgiu, também, a ideia de justiça, nesse eu, a de que o bem ou o mal que lhe acontecem são ou não merecidos.

Vamos do sentir bem ou mal, para a vontade de querer o bem e de não querer o mal, para a imaginação de dever ou não ser assim, e para a também imaginação de se merecer ou não o bem e o mal que ocorrem. Mas o bem e o mal surgem logo num primeiro momento, quando ocorre o sentir. Como que apegado a qualquer sentir está o sentir isso como bom ou mau. Embora isso ocorra de forma muitas vezes aparentemente inconsciente, os sentimentos de prazer e desprazer estão permanentemente presentes no eu. O eu está permanentemente numa situação ética muito real, na situação ética de si.

Está na sua situação ética a partir do momento em que começa a sentir. A partir desse momento, em que sentiu, sentiu esse algo como bom ou mau, foi-lhe aprazível ou não, e entrou numa situação ética permanente. Permanente porque, a partir desse sentir, geraram-se as permanentes vontades de bem ou de mal, colocando o eu numa situação ética permanente, na permanente busca de bem ou de mal, de prazer ou de desprazer, e na senda do seu conhecimento. E tudo isso, o sentir, a vontade, a imaginação, se lhe revela como aprazível ou desagradável, como bom ou mau. Mas conhecer o bem e o mal não é saber mais do que: são os sentimentos de prazer e de desprazer no eu.

Para além disso, a situação do eu é factualmente boa ou má. Todos os eus estão factualmente bem ou mal, mas nenhum se encontra fora destas categorias. Mesmo que o eu esteja ainda num estado inconsciente acerca do seu estado, como um embrião antes de ter consciência, ou como alguém que tenha desmaiado, o bem e o mal ocorrem nele, não como sensações de prazer ou de desprazer, mas como potenciais sensações de prazer ou de desprazer, devido a – podemos imaginá-lo - estados físicos que gerarão prazer ou dor. Não sei se o exemplo é o melhor, dado que podemos questionar-nos sobre se um embrião sem consciência é um eu (dado que aparentemente o eu só é eu quando é eu para o eu). Mas não é isso que se pretende conhecer neste texto.

Nenhum eu devia estar num situação ética má. Num mundo eticamente perfeito, onde tudo ocorresse da melhor forma logicamente possível, o mal não existiria, e todos os eus teriam apenas sentires de prazer mas não de desprazer, e teriam consciência disso como bom. Nesse mundo, estaríamos todos permanentemente felizes. Mas o nosso mundo não é esse, tem muito sofrimento, e não podemos estar permanentemente felizes. Basta olharmos para ele: fome, miséria, doença, violência… Este mundo tem muito sofrimento. É um mundo eticamente muito imperfeito.

Talvez o mundo não possa ser de outro modo. Há possibilidades pensáveis, mas não sabemos se são apenas pensáveis ou se poderiam ser reais. Certo é que, dada a história, este mundo não passa já incólume de ser um mundo com muito sofrimento. E se é certo que evitamos algum sofrimento através dos nossos actos, é também certo que há algum sofrimento que não podemos evitar. Não se segue que seja necessário, mas apenas que eliminá-lo está fora das nossas possibilidades. E pode ou não ser necessário, tal como tudo; mas isso é uma incógnita, se tudo é ou não determinado.

Determinado ou não, o eu está permanentemente na sua situação ética. Mesmo que não tenha possibilidade de escolha e de portanto não poder mudar a sua situação, o eu está permanentemente na sua situação ética, porque permanentemente a sentir algo como bom ou mau, porquanto é eu e sente a realidade como boa ou má, gerando nele os sentimentos de prazer e desprazer. Uma situação ética é má só se gera desprazer a algum eu, e é boa só se gera prazer a algum eu. Quanto mais prazer for gerado para os eus, melhores serão as suas situações éticas.

A situação ética do eu constitui-se por: um sentir (ou sentir-se) bem ou mal, a vontade de bem ou de mal, e a imaginação do dever ser ou não assim. Num momento posterior, a também imaginação de um merecer ou não que assim seja, quando se tem reflexão e passado para reflectir e comparar com o presente ou com um imaginado futuro. Mas a situação ética do eu, como tudo o que é real, ocorre no presente, está em ocorrência. O bem e o mal vão ocorrendo, com maior ou menor intensidade, em si. São, por um lado, sentidos imediatamente e, por outro, estendidos no tempo… Vão-se prolongando, têm duração (como tudo o que existe no tempo, que tem uma certa duração). E isso é a situação ética do eu.

Sem comentários:

Enviar um comentário