quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Um mundo onde mais bem pode ser pensado

A partir do momento em que o eu sente algo como agradável ou desagradável estamos perante um facto ético. Porém, quando o eu afirma que deveria ser deste ou daquele modo, não estamos perante facto algum, mas perante uma vontade ética – desejaria que fosse bom, não desejaria que fosse mau. Nunca sabemos se o dever corresponde aos factos, porque nunca sabemos se a felicidade ou a infelicidade são merecidos. Não sabemos se o mundo ocorre como deveria ocorrer, se só pode ocorrer como ocorre… Se não existirá, no mundo, a maior quantidade possível de bem. Porque o mundo como deveria ser é isso: um mundo com a maior quantidade possível de bem.

E, num mundo com tanto sofrimento, parece não ocorrer a maior quantidade possível de bem. Mas, mais uma vez, não sabemos se poderia ocorrer, a cada momento, mais bem do que aquele que ocorre. Não sabemos se alguma parte do sofrimento que ocorre é evitável. Porque não sabemos se vivemos num mundo determinista ou indeterminista. Se tudo estiver determinado, uma maior quantidade de bem é apenas logicamente possível, enquanto que se tudo não estiver determinado é metafisicamente possível mais bem. Independentemente disto, um mundo com mais bem do que este pode sempre ser pensado. Um mundo onde exista o mínimo de sofrimento é um mundo onde mais bem pode ser pensado. Num mundo onde existe muito sofrimento, muito mais bem pode ser pensado.

Um mundo onde existe justiça é ainda um mundo onde existe mal, porque existem recompensas e punições pelos actos do eu. E é sempre mau punir um eu. Por isso, um mundo eticamente perfeito seria um mundo onde nenhum eu precisasse de ser punido. Porque a punição é um sofrimento no eu e é sempre mau infligir sofrimento no eu. Ao punirmos, estamos a infligir sofrimento. Mas a punição segue-se de um mal anterior. Ainda assim, não deixa de ser um mal. Por isso, um mundo onde não existe mal não é um mundo onde existe justiça, a menos que consideremos justo nenhum eu sofrer, e afirmarmos que o mundo eticamente perfeito tem a propriedade de ser justo. Mas falamos de uma justiça sem punição, de um estado de bem-estar total dos eus. Isso sim, seria justo, porque nenhum eu merece sofrer.

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