A partir do
momento em que o eu sente algo como agradável ou desagradável estamos perante
um facto ético. Porém, quando o eu afirma que deveria ser deste ou daquele
modo, não estamos perante facto algum, mas perante uma vontade ética –
desejaria que fosse bom, não desejaria que fosse mau. Nunca sabemos se o dever
corresponde aos factos, porque nunca sabemos se a felicidade ou a infelicidade
são merecidos. Não sabemos se o mundo ocorre como deveria ocorrer, se só pode
ocorrer como ocorre… Se não existirá, no mundo, a maior quantidade possível de
bem. Porque o mundo como deveria ser é isso: um mundo com a maior quantidade
possível de bem.
E, num mundo
com tanto sofrimento, parece não ocorrer a maior quantidade possível de bem.
Mas, mais uma vez, não sabemos se poderia ocorrer, a cada momento, mais bem do
que aquele que ocorre. Não sabemos se alguma parte do sofrimento que ocorre é
evitável. Porque não sabemos se vivemos num mundo determinista ou
indeterminista. Se tudo estiver determinado, uma maior quantidade de bem é
apenas logicamente possível, enquanto que se tudo não estiver determinado é
metafisicamente possível mais bem. Independentemente disto, um mundo com mais
bem do que este pode sempre ser pensado. Um mundo onde exista o mínimo de
sofrimento é um mundo onde mais bem pode ser pensado. Num mundo onde existe muito
sofrimento, muito mais bem pode ser pensado.
Um mundo
onde existe justiça é ainda um mundo onde existe mal, porque existem
recompensas e punições pelos actos do eu. E é sempre mau punir um eu. Por isso,
um mundo eticamente perfeito seria um mundo onde nenhum eu precisasse de ser
punido. Porque a punição é um sofrimento no eu e é sempre mau infligir
sofrimento no eu. Ao punirmos, estamos a infligir sofrimento. Mas a punição
segue-se de um mal anterior. Ainda assim, não deixa de ser um mal. Por isso, um
mundo onde não existe mal não é um mundo onde existe justiça, a menos que
consideremos justo nenhum eu sofrer, e afirmarmos que o mundo eticamente
perfeito tem a propriedade de ser justo. Mas falamos de uma justiça sem
punição, de um estado de bem-estar total dos eus. Isso sim, seria justo, porque
nenhum eu merece sofrer.
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