O bem e o mal são as sensações de prazer e de desprazer no eu. Não existem bem nem mal para lá do eu. Bom é quando ocorre uma sensação de prazer no eu e mau é quando ocorre uma sensação de desprazer no eu. O eu, a partir do momento em que sente e se sente, sente algo como agradável ou desagradável, como bom ou mau, como a querer ou a não querer. Depois, constrói a noção de dever e de não dever ser. Constrói os conceitos de bem e de mal, como se existissem bem ou mal para lá daqueles bens e males que ocorrem nos eus.
O bem e o mal são a felicidade e o sofrimento. Feliz é aquele que tem uma sensação agradável, e infeliz é aquele que tem uma sensação desagradável. Naturalmente, as sensações agradáveis e desagradáveis são gradadas, e vão desde o pouco bom ao extremamente bom e do pouco mau ao extremamente mau. Vão desde o mais desejado ao mais insuportável. O bem e o mal são qualidades contrárias que existem em diferentes quantidades. Desde o muito bom ao muito mau.
Não são tanto qualidades contrárias, embora psicologicamente para aí tendamos, mas mais gradações de uma mesma qualidade que vão desde algo a que chamamos muito bom, até algo a que chamamos muito mau. São uma sensação, mas sentida com uma qualidade diferente porque com uma quantidade diferente. Não existem propriamente um bem ou um mal exteriores ao eu, porque é precisamente no mais íntimo do eu que o bem e mal ocorrem. É o eu que sente o bem e o mal, e o bem e o mal são isso, esse sentir.
Pertencem, não à estrutura do mundo, mas ao mundo do eu, ao que lhe é mais interior, porque o atingem directamente como picadas de prazer ou de desprazer, que lhe são evidentes, evidentemente boas ou más, que são nesse momento o bem ou mal, embora saiba que há mais ocorrências de bem e de mal no mundo. Então, o bem e o mal repetem-se. Embora devido a circunstâncias diferentes, eus diferentes, apelidam igualmente de boas ou más diferentes experiências, e por isso sentem, nessas diferentes experiências, ambos igualmente a sensação de prazer ou de desprazer no eu. Ambos sentem isso.
Mas o bem e o mal não existem fora do mundo dos eus, nos ventos e nos mares (a menos que os ventos e mares sejam eus…), nos céus… O bem e o mal existem e devem ser procurados ou evitados só no mundo dos eus e pelos eus. Não existiria mal algum em que nada existisse se não existissem eus. Nada sentiria bem nem mal. Seria, para o que existisse, como se nada existisse. Nada importaria, e a destruição total do que existisse de nada importaria também. Porque a noção de importância é uma noção que provém do sentimento de prazer do eu e daquilo que o eu toma como importante para si e comunitariamente.
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