A vontade
tem a sua génese no sentir. Só se tem vontade a partir do momento em que se
sente algo como bom ou mau, momento em que se quer mais do bom e menos do mau.
Nasce, nesse momento, uma vontade de bem para o eu. Desde esse momento que o eu
procura o bem e evita o mal. Procura o prazer e evita o desprazer. Procurar é
querer. O eu quer ter prazer e decidiu-se chamar “vontade” a esse movimento do
eu em direcção ao sentimento de prazer. Mesmo aqueles que procuram um desprazer,
com causas físicas ou psicológicas, procuram um prazer psicológico. Toda a
vontade se dirige para o prazer, a que também se decidiu chamar “bem” ou “felicidade”.
O prazer
pode ser prazer do eu ou prazer do outro, sendo que deveria, num mundo
eticamente perfeito, ser prazer para ambos. Quer dizer, num mundo eticamente
perfeito, todos os eus estariam permanentemente a aumentar ao máximo os estados
de prazer, seus e dos outros, estados que seriam sempre sentidos como uma
ascensão para o máximo. Isso seria o mundo eticamente perfeito, um mundo sem
sofrimento, e com a felicidade em permanente ascensão. Não é o nosso. E até
parece que a vontade de bem existe apenas porque existe a vontade de melhor, e
se existe vontade de melhor, significa ainda que o eu sente algum desprazer com
algo. Caso contrário, teria atingido o melhor, e não teria vontade de mais.
Teria vontade de, apenas, a manutenção daquele estado de prazer.
Querer que o
mundo seja de tal modo e achar que o mundo deve ser de tal modo são uma e a
mesma coisa. O eu subjuga a sua visão do mundo ao movimento para o prazer e
para o bem, e acha que só esse prazer e esse bem devem ser procurados. Nas
várias coisas que procura, procura o prazer e o bem. Podemos, no entanto,
pensar também num movimento do eu para o prazer e o bem, subjugado a uma visão
do mundo. A partir do momento em que o mundo se torna inteligível para o eu,
este pode pensar novas ideias de bem, que implicam extremo prazer. Por exemplo,
o prazer de dar ou de cuidar do outro. O eu estende-se ao outro devido à sua
visão do mundo, e passa a querer não só o seu bem, como o bem do outro. Quer o
bem do outro, porque entende que o seu bem e o do outro são melhores do que o
seu bem. São uma incrementação do prazer e do bem.
Aprende,
também, que o outro é um eu, como ele, e que deve ser respeitado como se fosse
ele mesmo. Deve ser tratado como se fosse ele mesmo. Isso é a vontade de bem
desenvolvida ao máximo: um eu que quer o bem, seu e de todos. O bem, do eu e do
outro, é o que ocorre num mundo eticamente perfeito. Mas um mundo eticamente
perfeito não existe. O nosso mundo é cheio de imperfeições e de sofrimento:
doença, velhice, morte, crime, acidentes… O sofrimento é inevitável. Todos, a
dado ponto da sua vida, sofrem. Qual o sentido de todo este sofrimento? Por que
existe o sofrimento?
Poderíamos
afirmar que o sofrimento existe para que exista a felicidade, mas o sofrimento
que existe no nosso mundo existe em excesso. O nosso mundo é um mundo com
excesso de sofrimento. Há eus que sofrem sofrimentos atrozes. E isso é mau,
independentemente das razões pelas quais sofrem. O sofrimento é sempre mau e
deveria ser desnecessário. Mas, ao invés de ser desnecessário, é uma componente
necessária da vida. Toda a vida sofre. Não existe vida que só tenha prazer. O
bem e o mal existem em todas as vidas. A perspectiva ética existe em todos os
eus. Os conceitos de bem e de mal existem, de forma evidente, em todos os eus.
O que não sabemos é se existem, em todos os eus, os conceitos de certo e
errado, merecer e não merecer, a ideia de justiça. Talvez alguns eus apenas
sintam algo como bom ou mau, mas não o sintam, como os humanos muitas vezes
sentem, como merecido ou imerecido. Ainda assim, ninguém deveria merecer um
mal. Todos os eus deviam viver num constante estado de prazer e de sentimento
de bem. Mas isso não ocorre, dado o modo como o mundo é.
Sem comentários:
Enviar um comentário