quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

O belo e o feio e o bem e o mal (I)

O belo é atraente e o feio é repulsivo. Sentir beleza gera uma sensação de prazer e sentir fealdade gera uma sensação de desprazer. Tanto uma como a outra podem provir do interior como do exterior, da mente ou dos sentidos, das ideias ou dos sentires. Quando alguém se sente atraído pelo comumente aceite como feio, é porque o acha belo. Para esse eu, esse objecto é belo. E ninguém pode afirmar que para ele o objecto não é belo. É belo, gera atracção, gera sentimento de prazer – é bom e desejado. É feio, gera repulsa, gera sentimento de desprazer – é mau e indesejado. A apreciação estética do belo e do feio é, se a destrinçarmos, uma apreciação ética, de algo como bom ou mau. Tudo isto é instintivo.

Mas o bem e o mal são diferentes do belo e do feio. O mal extremo, por exemplo, implica risco de vida e o feio extremo não. Um bem pode implicar um sentimento de desprazer para que depois haja um sentimento de prazer maior, e o belo nunca implica um sentimento de desprazer, é sempre um sentimento de prazer. Por isso, o bem e o mal, e o belo e o feio não são a mesma coisa. O belo e o feio são como que simulacros de bem e de mal. Embora o mal possa ser representado de forma bela, e portanto esse belo ser um simulacro do mal. Por isso, o belo e o feio não são como que simulacros do bem e do mal. A única ligação que parece encontrar-se entre eles é a ligação instintiva (bom e belo; mau e feio), e a tendência do eu para o bem e para o belo, a vontade de bem e de belo, e a desvontade de mal e de feio.

Num mundo eticamente perfeito, certamente que não existiria maldade mas… Existiria fealdade? Não. Num mundo eticamente perfeito tudo seria bom e belo. A fealdade é um mal: ninguém gosta de ser feio por dentro ou por fora, ninguém gosta de uma obra de arte feia, e ninguém gosta de uma paisagem feia. E num mundo eticamente perfeito não existiriam o não gostar nem o sentimento de desprazer que provoca, mas apenas o gostar, o prazer, o belo e a felicidade. Mas o belo e o feio, e o bem e o mal existem apenas nos eus. O bem é belo e o mal é feio – outra ideia instintiva. Na natureza, sabemos que existem objectos belos mas maus, e objectos feios mas bons. Na natureza, nem tudo o que é belo é bom e nem tudo o que é feio é mau. Na arte, não: tudo o que é belo é bom e tudo o que é feio é mau. Mas parece que estamos a falar de bons e de maus diferentes.

Considerar um eu bom, por exemplo, é considerá-lo bondoso, enquanto considerar um obra de arte boa, não é certamente qualificá-la de bondosa! Pode ser considerada boa por variadíssimas razões, mas a última razão devia ser a de que provoca um sentimento de prazer em quem a observa. Do mesmo modo, devia ser considerada má a que provoca um sentimento de desprazer em quem a observa. Em última instância, interessam os sentimentos de prazer e de desprazer no eu, tal como na ética. Mas na ética o outro é um eu e na arte o outro é uma obra de arte. Qualquer eu tem mais importância do que qualquer obra de arte. Por isso, os objectos da ética - o bem e o mal no eu, por exemplo - são mais importantes do que os objectos da estética - o belo e o feio, por exemplo. 

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