quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Alguns tópicos de ética

A justiça e a injustiça

A justiça é um sentimento de prazer ou desprazer merecido no eu e a injustiça é um sentimento de prazer ou desprazer não merecido no eu. A justiça devia ser um bem, mas será que podemos considerar justo um sentimento de desprazer no eu? Um sentimento de desprazer é sempre sentido como um mal, por isso perguntamos: há quem mereça sentir-se mal? Não, ninguém merece sentir-se mal. Mas há eus que, pela razão humana, merecem sentir-se mal e até morrer, devido ao mal que provocam aos outros. Por isso, pela razão humana, há eus que merecem sentir-se mal e, segue-se, outros que merecem sentir-se bem. Mas o que é merecer?

A justiça existe?

Quem, nos seus actos e em certos modos de pensar, provoca o mal, merece o mal. Caso contrário, merece o bem. É essa a ideia fundante da ideia de merecer. Colhe-se o que se semeia, é a ideia de justiça. Mas a justiça existe? Será, por exemplo, o sistema penal justo, causando mais sentimento de desprazer a um eu – o recluso – para lá daquele que este já provocou? Creio que a única ideia que defende a existência de muros e prisões é a ideia de protecção: temos de proteger-nos de certos eus. Porque provocar mais sofrimento onde ele já existe não é uma solução plausível.

Um mundo eticamente imperfeito

Num mundo eticamente perfeito, os eus nunca provocariam o sentimento de desprazer nos outros eus, mas apenas o de prazer. Esse não é o mundo real porém, que não é eticamente perfeito. É cheio de imperfeições, cheio de mal. Doença, velhice, morte, crime, acidentes… O eu passa por tudo isto e o sentimento de desprazer é enorme, e há uma sensação de imperfeição especialmente nos acidentes, nas aparentes obras do acaso, das circunstâncias, no seu absurdo. Há a sensação de que o mundo, interferindo com a ética, não se importa com a mesma. Que provoca mal e mas que no entanto é não intencional. Participa da ética mas não é propriamente um agente, ou pelo menos é um agente que não age intencionalmente. Só os eus agem intencionalmente.

Do eu ao outro

O melhor bem e o pior mal não são necessariamente os provocados com intencionalidade. Podem existir catástrofes naturais provocadoras de muito mais mal do que outros episódios provocados com intencionalidade. Porque, no fim, o bem e o mal existem apenas no eu, e o que conta são os sentimentos de prazer e desprazer no eu. Em quantos mais eus ocorrer o sentimento de prazer, melhor. O máximo que no mundo se pode atingir em termos de felicidade é o máximo de eus terem o máximo de sentimento de prazer possível. Em última instância conta, não a intenção da acção, não a acção, mas a consequência da acção no eu, se provoca prazer ou desprazer. A ideia é aumentar o prazer e diminuir o desprazer no maior número possível de eus. Mas por que não nos preocupamos apenas com o nosso eu? Por que é a felicidade do outro importante para nós? Por que é o sentimento de prazer do outro importante para nós? Creio que é por gostarmos do outro. Por nos sentirmos ligados ao outro, de tal forma que fosse um outro de nós, um igual a nós.

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